O ALGORITMO E A EMOÇÃO

Sim, nós já sabemos: quando você não paga por um produto, o produto é você. Mas o que talvez não tenhamos nos dado conta é que isso deixou de ser uma metáfora e se transformou numa lógica que molda não apenas o consumo, mas a forma como enxergamos a nós mesmos. Os algoritmos não estão apenas nos observando, estão nos definindo. O feed não mostra só o que “gostamos”. Ele nos treina para acreditar que aquilo é o que somos.

E nesse processo, a história que nos tornou Homo sapiens – a capacidade de criar narrativas compartilhadas – está sendo sequestrada. Só que agora não é a verdade que guia a narrativa, mas o comportamento. Cada clique reforça padrões invisíveis que retroalimentam desejos, medos e ilusões. A pergunta já não é mais se somos o produto. A pergunta é: até que ponto continuamos no comando?

A ironia é que, enquanto construímos inteligência artificial, biotecnologia e sistemas autônomos, nos tornando, como diria Harari, Homo Deus; seguimos reféns emocionais de uma notificação na tela. Não é que estejamos sendo enganados. O que é mais perigoso é acreditar que estamos escolhendo livremente, quando na prática apenas navegamos dentro de limites invisíveis.

É aqui que a neurociência de Damásio entra como um alerta poderoso: sem emoção, não há decisão. Somos seres emocionais que pensam, não o contrário. O coração acelerado diante de um alerta, a tensão antes de uma reunião, o frio na barriga diante de uma oportunidade… tudo isso é dado. E é isso que guia nossas escolhas muito antes da lógica entrar em cena. A confiança vem primeiro, a razão só aparece depois para justificar.

Essa constatação conecta ciência, arte e negócios. Dalí sabia disso quando provocava o cérebro com imagens impossíveis de ignorar. Ele não apenas pintava quadros, mas criava gatilhos de curiosidade, contraste, surpresa – e transformava até a própria imagem pública em parte da obra. Assim como Ray Kroc, que, já depois dos 50, transformou erros em solos de jazz e construiu um império a partir da teimosia silenciosa. Ambos compreenderam, cada um à sua maneira, que não basta ter lógica ou processo: é preciso tocar no ponto onde a decisão realmente acontece.

No fundo, o que UNE tudo isso é uma verdade simples: não vivemos uma era da razão acelerada, mas da emoção potencializada. E a lição que fica é que não existe cedo demais ou tarde demais para se reinventar. O risco não é errar, o risco é permanecer imóvel, acreditando que já sabemos o suficiente, enquanto o mundo reinicia o jogo todos os dias/meses com novas ferramentas, novos contextos, novos algoritmos.

Escolho o caminho da reinvenção constante. Faminto por ideias, por conhecimento e por movimento. Porque o futuro não vai esperar. E, se você quer realmente estar no comando, também não deveria.